Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Um negro chamado Darcus Howe

Eu já havia postado uma versão deste vídeo em meu perfil na internet, mas a que conquistou mesmo a audiência brasileira é esta aqui com legendas em português, comentada por Maria Cristina Poli, do Jornal da Cultura. O evento é dramático. A apresentadora Fiona Armtrong, da BBC, desrespeita o escritor e ativista Darcus Howe ao vivo, que a repreende com emoção e clareza. Howe vive há 50 anos no Reino Unido (Armstrong tem 54) e sentiu na pele os efeitos da segregação racial e política naquele país. Mas o título da versão que circula por aqui é sintomática da visão do internauta (não fui mais adiante apara saber quem postou) e, por que não, de seus republicadores. O título do vídeo é o seguinte “Fala indignada de Negro à BBC”. Ora, Darcus Howe não é simplesmente “Negro”, assim mesmo, com a primeira letra em caixa alta ou um “morador da periferia”, como diz Poli. Howe é um ativista político e fundou o braço dos Panteras Negras no Reino Unido. Qualquer rápida visita à pagina dele na Wikipedia (claramente atualizada de acordo com a emergência dos fatos), daria conta do recado. Sua obra é tão significativa que virou obra de estudo de pesquisadores de Cambridge. Uma biografia está prevista para ser lançada em janeiro de 2012. Mas a visão do internauta é outra, tão colonial quanto a da apresentadora da BBC, que passou a infância na Nigéria, quando o pai era oficial do exército inglês. O embate parece trivial, um simples caso de desrespeito entre um apresentador e um entrevistado, algo recorrente em qualquer lugar do mundo – inclusive no Brasil. Mas não é. Fiona Armstrong é uma lady, com título e tudo - Lady MacGregor -, que ela obteve ao casar-se com chief Sir Malcolm, em 2005. Trata-se de um clash social “ao vivo”, de valores e classes sociais distintas, em uma sociedade fortemente estratificada como a britânica. O grande número de visitas e de republicações da mesma versão do vídeo no facebook (tomo por amostra os posts de meus 900 e poucos amigos), sem nenhuma menção ao título, só comprova como muitas vezes que o protesto nas redes sociais ocorre muitas vezes sem pensamento crítico, reduzindo o ativismo político incendiário a meros fogos de artifício.

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