Se existe uma coisa ruim da cobertura do jornalismo musical é o sentimento de não pertencimento que invade a alma lá pela décima ou sétima banda. Multidões nunca foram meus lugares prediletos para aplacar a solidão. Pelo contrário, alavanca a melancolia como uma canção do Yo La Tengo. No SWU não foi diferente. Se por um lado ver adolescentes e jovens se divertindo bêbados pelos campos, entoando refrões de hits conhecidos ou mesmo batendo cabeça para músicas de bandas que eles nunca haviam ouvido antes traz uma certa simpatia - embora sempre me faça pensar nos livros que eu poderia estar lendo ao invés de servir de voyeur da dimensão alcoólica hedonista de outrem -, e o encontro de diferentes sotaques nas inúmeras filas do festival (para entrar, para sair, para comer, para urinar ‘não para todos’) também me fez pensar que talvez não precisemos mesmo só de carnavais para que os jovens se encontrem, bebam juntos, trepem e engravidem, por outro tudo isso me faz questionar o quanto todos estavam realmente unidos por um ideal - qualquer que fosse.. Enquanto nas páginas dos jornais discutia-se temas conservadores como aborto – na minha visão, um tipo de política que aproxima o Brasil do Chile -, gays se beijavam se vergonhan (será mesmo?), metaleiros vomitavam tranquilamente pelos cantos e fãs do poperô mordiscavam seus lábios em felicidades induzidas por líquidos da felicidade. Mas é justamente o poder econômico desses jovens que faz com que um evento dessas proporções aconteça. O nome Eduardo Fischer, um personagem até então reservado às colunas de fofoca empresarial e da publicidade, entrou no vocabulário do público ao lado de constantes questionamentos sobre sustentabilidade, falta de sinal do celular e queda do sistema do cartão de crédito. Como era de se esperar, essa juventude enriquecida, sempre esteve mais preocupada com os problemas de seus quintais do que com falsas promessas mercadológicas de sustentabilidade. Eles não demoram em reclamar, vaiar e dar risada sobre as constantes inserções de áudio nos intervalos das atrações que traziam manchetes alarmistas dos apresentadores do Jornal Nacional sobre desastres ambientais. O efeito era mais brochante do que décadas de vício em cocaína, algumas delas iniciadas ali mesmo no #swu. Não à toa, se prestássemos um pouco mais atenção nas feições dos jovens zanzando de um lado para o outro pela "já lendária Fazenda Maeda", como dizia Massari em seus primeiros comentários para a Oi FM, podia se sentir um tanto da melancolia do grupo lá de cima, ou dos Pixies, ou de qualquer umdos parcos representantes da cena independente real brasileira ou internacional. Quando o público do Avenged Sevenfold, formado quase que em sua totalidade por adolescentes, começou a vaiar o show do Yo La Tengo, ficou claro que a preocupação com o line-up não havia sido nunca o foco dos organizadores do festival. Cozidos por garotos que poderiam ser amigos de seus filhos (a banda tem 25 anos), o trio se ensimesmou em preciosidades experimentais, estendendo ao máximo a agonia adolescente, à qual se juntou a agressividade dos fãs do Cavalera Conspiracy. Max e Iggor Cavalera tem uma relação fraternal e pública complicada. O reconciliação dos irmãos foi tema de capa da revista Rolling Stone em 2008. Se o sucesso do #swu, estranhamente medido em números de latas de cervejas vendidas e recuperadas e em citações no twitter (ao invés de número de pessoas presentes nos fórum de sustentabilidade e cativação do público para questões afins, qualidade do som e capacidade de escoamento de público), servir para que o empresério Eduardo Fischer se reconcilie com Roberto Justus, poderemos aí estarmos certos de que ao menos nosso suor e nossa pele rachada pelo vento frio das caminhadas pela rodovia em busca de um táxi ou ônibus possa ter valido realmente de alguma coisa. Mais do que minha credencial ou seu convite da pista premium. E certamente mais do que do que qualquer contrato publicitário acertado que possa ter gerado o atraso da sua banda predileta para a entrada ao vivo do festival após o final da novela das oito. Marcas como o #swu valem mais do que a minha sustentabilidade ou a sua. Sujinho ou limpinho. Em tempo: ainda que grandes festivais como o Glastonbury sempre tenham vários problemas, o caminho de comparação ao qual o #swu são os Festivais Boutique ou ainda grandes como o Reading, Bestival, V, ou Isle of Wight: todos patrocinados por grandes marcas e com estrutura invejável.
Terça-feira, Outubro 12, 2010
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