Quando era criança, Glauco era o autor das tiras de que eu menos gostava na Folha de São Paulo ou na Mad, que eu e meus irmãos ganhávamos de meu tio Paulo. Mas eu nunca deixei de lê-las. Dona Marta e Geraldão pareciam anárquicos demais. Pernas quádruplas, olhos esbugalhados, referências deslavadas a drogas injetáveis. A atração e repulsa no caos dos quadrinhos de Glauco eram demais para uma moleque frequentador de aulas de catecismo aos sábados. A falta de nexo dos diálogos. A relação maternal extrapolada. O fim imprevisto. O fim antes do fim. O fim depois do fim. É Geraldão o personagem que vivemos HOJE em São Paulo. Uma cidade tão veloz quanto violenta e ilógica. Eu tento imaginar como vai ser o velório de Glauco e me vem à cabeça o filme-homenagem de Glauber Rocha no velório de Di Cavalcanti:
“Amigo Di Cavalcanti, a hora é grave, é inconstante, tudo aquilo que prezamos, o povo, a arte, a cultura, vem sendo desfigurado pelos nomes do passado, que por terror ao futuro, optaram pela tortura. Poeta Di Cavalcanti, nossas coisas bem amadas, neste mesmo exato instante, estão sendo desfiguradas. Hay que lutar, Cavalcanti! Como queria Neruda. Por isso pinta, pintor, pinta, pinta, pinta... Pinta o ódio. Pinta o amor. Com o sangue da sua tinta, pinta as mulheres de cor. Com sua desgraça distinta, pinta o fruto e pinta a flor, pinta tudo que não minta, pinta o riso e pinta a dor, pinta sem abstracionismo, pinta a vida, pinta a dor, no seu mágico realismo...”.
Sexta-feira, Março 12, 2010
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