É demorou para que eu escrevesse sobre "Jean Charles". Não foi falta de tempo. Assisti ao filme no dia 16, na pre-estreia do Iguatemi. De fato, a história de Jean Charles de Menezes é uma tragédia sem precedentes. O nome "De Menezes", de origem portuguesa, e de difícil pronúncia para os ingleses, foi repetido à exaustão no noticiário mundial e na impressa britânica nos anos que sucederam ao assassinato do eletrecista e faz tudo brasileiro que morava em Londres e foi "confundido" com um terrorista.
A partir daí eu passei a companhar quase que diuturnamente o caso. Li todo o tipo de reportagem, declarações da polícia e fiquei igualmente consternado com as promoções, afirmações falsas e toda a sujeira que uma instituição como a polícia inglesa utilizou para conseguir se safar desse assassinato.
Em jogo, não estava somente a o prestígio da polícia (não raramente acusada de racista), mas sim os salários, aposentadorias e todo o tipo de benefícios aos seus funcionários. Sim, porque ao contrário do que acontece nas polícias brasileiras, profissão cujo sacrifício envolvido espera-se assemelhar ao sacerdócio, no Reino Unido, ser policial é um emprego qualquer, com salário decente e uma vida praticamente normal e não simplesmente o último refúgio para um emprego e a porta de entrada para um salário miserável - mas funcional, como é no Brasil.
"Jean Charles", com direção do Henrique Goldman, é um filme com altos e baixos. Os altos são óbvios, mas nem por isso pouco louváveis. A atuação de Selton Mello é muito boa, A de Luís Mello, no papel do primo, ainda melhor. A história é triste e já está vendida. É uma saga triste de um brasileiro fora de seu país, do "non-belonging" físico e emocional, de uma transferência geográfica dos problemas nacionais para terras estrangeiras.
No entanto, a participação curiosa de não-atores nos papéis deles mesmos, como personagens íntimos de Jean Charles, provoca um anti-climax perigoso, que pode forçar os mais sensíveis a sair da sala. Em uma das cenas a dublagem é horrorosa (parece que foi feita uma dublagem com uma atriz real sobre a fala de uma atriz amadora na primeira aparição da cabeleireira dos passaportes).
No final, a sensação é de uma perturbadora emoção predatória, gerada por um tardio funeral de Jean Charles. Ao sair do cinema, fica tudo misturado. A má-performance dos não-atores, a revolta com a polícia (inglesa ou brasileira, tanto faz, porque o que se critica aqui é a falta de poder do cidadão comum diante do poder policial. No Brasil, protegida pela corrupção; no Reino Unido, pelo corporativismo) e, o luto da morte do boa-praça criado por Selton Mello.